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Thayse Kiel Truffa

Acadêmica de Jornalismo

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Se meu fusca falasse?!

O carro é antigo, mas os motoristas estão cada vez mais jovens. O Fusca está na moda, de novo!

27 de agosto de 2019

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Thayse Kiel Truffa

Acadêmica de Jornalismo

            O FUSCA é um carro que chama a atenção por onde passa. Seja pelo modelo besourinho tão conhecido, por suas diferentes cores e modificações que os donos fazem. É notável como isso vem se tornando cada vez mais comum na paisagem urbana de Cascavel, e apesar de ser um carro antigo, vemos cada vez mais jovens pilotando.

 

            Ele foi criado nos anos 30, a economia alemã não estava em seu melhor período, a Alemanha havia perdido muito com o final da Primeira Guerra Mundial, e apenas os muito ricos tinham carros. O país tinha a pior taxa automobilística da Europa, os modelos eram grandes e luxuosos, com a produção ainda em grande parte manual.

 

            O governo da época queria aumentar essa taxa, passar para os outros países que a Alemanha era um país forte e modernizado (apesar de uma parcela da população ainda passar fome) e para isso se iniciou o projeto da produção de um carro popular. Após alguns estudos, projetos e protótipos, nasceu o Fusca. Era um carro pequeno e acessível e foi o primeiro carro da marca Volkswagen, que em tradução literal significa “Carro do povo”.

Fusca e foto de Everton Schimidt

           Quando o carro chegou aos Estados Unidos, em 1949, os americanos não gostaram muito e o apelidaram de “beetle” ou besouro em português, além de ser conhecido como o “Carro de Hitler” por ter sido criado durante seu governo e ser o ideal de carro para o povo imaginado por ele.

 

            Com o visível desafio que a marca enfrentava, foi contratado o publicitário Bill Bernbach para criar uma campanha que chamasse a atenção. Assim surgiu a “Think Small” ou “Pense Pequeno”, que fazia referência ao modelo que era bem menor que os outros carros, além de contrapor o estilo americano de “Pense Grande”. Utilizando o bom humor, com referências às características do carro (seu modelo era baseado em uma gota d’água), sua “falta de beleza” de acordo com os padrões da época e seu motor que era resfriado a ar (os modelos tradicionais eram resfriados a água, que congelava no inverno), a campanha ganhou força e foi divisora de águas no mundo da publicidade.   

    

            O Fusca bateu em 1972 o recorde de carro mais vendido do mundo, que antes pertencia ao Ford Modelo T e em 2003 ganhou uma última leva de fabricação, sendo feitos três mil unidades. O último exemplar encerrou a história de 65 anos de produção do modelo, ao longo dos quais foram produzidos 21.529.464 unidades.

 

Fusca de Laura Hellem Costa

            O FUSCA E SUA HISTÓRIA FAMILIAR

            É natural que os jovens se inspirem nos familiares, e que herdem certas paixões. Isso não é diferente com os Fuscas. Como já foi criado para ser o carro do povo, o carro tem um valor de mercado baixo e é difícil encontrar uma família na atual geração que nunca teve um Fusca. Seja do avô, do pai, há sempre uma história com o besourinho que é contada para os mais novos.

 

            O modelo, hoje considerado um clássico, vem se tornando cada vez mais comum em Cascavel, mas não são apenas os senhores ou os menos abastados que pilotam. O número de jovens donos de um Fusquinha é cada vez maior.

 

Para entender isso, conversamos com quatro jovens donos de Fuscas com idade média de 22 anos, e chegamos a uma conclusão: o Fusca é uma paixão de família.

 

            Para Everton Schmitt (22) por exemplo, o ponto crucial na escolha do modelo foi seu valor baixo, além do gosto por carros mais antigos. “Eu sempre me interessei por antigos, contudo, tinha meu olhar mais voltado para carros grandes, como os clássicos americanos e os lendários Opalas e Mavericks brasileiros. O que mudou durante minhas pesquisas – procurando por carros mais acessíveis para um jovem universitário. Comecei a ver carros mais baratos, como Corcel, Chevette e os refrigerados ar, e, foi aí, que o Fusca começou a me chamar a atenção. A partir disso, pesquisei sobre a história do carro e o simpático carrinho foi ganhando cada vez mais o meu interesse. Então, começaram as buscas pelo meu Fusca!”.

 

            Depois de muita pesquisa e busca pelo Fusca ideal, com algumas decepções no meio do caminho, finalmente ele encontrou um que lhe foi perfeito. Foi anunciado na cidade onde seu irmão morava, que marcou de ver o carro para ele. “Ao sair de lá, ele me liga e diz o seguinte: “pode se preparar para vir pra cá amanhã, tenho certeza que você vai comprar esse Fusca!”. Não deu outra, no outro dia fui até a cidade, e, quando olhei o fusca, eu já tinha plena convicção de que seria ele – é o que dizem: não é do dono que escolhe o carro, é o carro que escolhe o dono!”

 

            Para Arthur Lopes (21) também foi paixão de infância. Seu pai era mecânico e uma de suas lembranças mais fortes é do cheiro de gasolina e as mãos com graxa e sempre que via um carro antigo fazia algum comentário ao qual Arthur estava sempre atento. “Lembro uma vez vimos um Fusquinha bem relíquia na rua e ele comentou: esse barulho de motor a ar é tão bom. Na época eu nem sabia o que era motor a ar.”

 

            Ele começou a planejar comprar seu Fusca quando tinha 15 anos, pois via no modelo um carro que absorvia a personalidade de seu dono. “Se o dono for um senhor por exemplo, ele pode ser todo clássico, com detalhes em cromo. Se for um anarquista, vai ter a lataria enferrujada, detalhes personalizados, tudo isso torna o carro a cara do dono”. Além disso, o valor baixo também lhe chamou atenção e logo com 17 anos já começou a juntar dinheiro para comprar o seu próprio e em parceria com o  pai comprou o seu Fusca 1968.

 

            Colocar o carro para rodar foi um outro ponto. O que encontraram estava com a carcaça boa, mas o motor fundido, por isso foram em busca de um novo motor, colocando no lugar o motor de uma Kombi 2009. Dona Off, como Arthur batizou por ver nela uma senhora muito decidida, já passou por vários momentos com ele, desde  ficar sem acelerador e ter que atravessar a cidade apenas com a embreagem, ou ficar sem a embreagem, trocando a marcha apenas escutando o tempo do giro do motor, até um acidente que quase destruiu seu Fusca. “Sentei no carro todo amassado e desabei a chorar em ver o carro todo daquele jeito. Ver todo o esforço virar lata amassada foi muito triste”. Mas o amor por Dona Off foi maior e com ainda mais esforço, ele conseguiu reconstruir sua velha amiga.

 

            Hoje, Arthur diz que aprendeu e cresceu muito dentro desse carro, é que ela é mais do que um carro, ela é um sonho e que nunca vai se desfazer dela.

 

            Já para Laura Hellen Costa (22), a paixão veio por meio de seu irmão e pai que amam carros antigos,inclusive tem alguns, além é claro do valor que ajudou bastante. Ela usa o carro para ir para a faculdade e o considera ótimo para o dia-a-dia.

 

            Laura procurou o Fusca ideal por quase dois anos e encontrou seu parceiro de aventuras na cidade de Dourados no Mato Grosso, partindo em uma viagem com seu pai e sua mãe para buscar o carro. “Foi muito legal, eu estava muito animada. Meu pai inclusive pediu para eu ficar mais calma ou o cara que estava vendendo não os daria desconto”. Agora em agosto ela vai fazer 2 anos com o seu Fusca e garante que ele é o seu xodó.

 

            E foi assim, com a paixão de família que começou a história de Izabela Santos (21). Seu pai sempre amou o modelo, sua casa é completamente decorada com o tema e ao completar 18 anos, ele lhe deu um Fusca verde, 1980. “O Fusca foi o primeiro carro do meu pai, e por eu ser a filha mais velha, ele queria que fosse o meu também”.

 

            Foi necessário reformar o carro quase por completo, apenas o motor funcionava, como o carro era bastante duro para dirigir, seu pai acabou lhe dando outro quando fez 19 anos. O Fusca amarelo de Izabela é seu companheiro de aventuras e muito conhecido pela cidade, por seu todo personalizado, com o vidro traseiro cheio de adesivos e o verde agora está sendo consertado e será passado para sua irmã mais nova que logo mais completará 18 anos, e seu pai acabou comprando um branco para si, que dirige com muito orgulho. “Minha irmã ainda não curte muito o Fusca, mas logo vai. Virou tradição já”.

 

            Além disso, Izabela que agora está grávida, não vê a hora de colocar a cadeirinha no banco traseiro de seu carro e já planeja os Fusquinhas em miniatura para decorar o quarto de seu bebê.

 

            O FUSCA SEQUESTRADO

 

            Infelizmente é normal escutarmos sobre carros roubados, mas e um Fusca sequestrado? Pois essa é a história do Gilberto Monteiro que teve seu companheiro de mais de 23 anos sequestrados na fronteira de Foz do Iguaçu com o Paraguai. “Era cor marrom, ano 1982, modelo Fafa. Levei meus filhos para a escola com ele durante toda a idade escolar. Era de estimação, as crianças cresceram dentro dele”. 

 

            O Fusca de Gilberto foi “furtado” em maio de 2018, em frente à delegacia da polícia federal. Assim que perceberam, acionaram a PRF, foi verificado no sistema de segurança que haviam passado há poucos minutos com o carro por lá. Entraram em contato com a polícia Paraguaia, o consulado, todo, mas não conseguiram reaver o Fusquinha. “No dia seguinte a “cabriteiro” que recepcionou o carro no Paraguai entrou em contato com o polícia pedindo um resgate de $3.000,00 dólares. Como não consegui pagar, o carro foi vendido para um colecionador de Concepcion pelo que disseram”.

 

            Apesar de ficar triste com isso, Gilberto não desistiu dos Fuscas e assim que puder irá comprar outro para dar passeios como fazia com seu velho companheiro.

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