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Renan Molin: Designer e diretor de arte, do Brasil para NY – PARTE 01

Renan foi o único brasileiro a trabalhar na campanha de eleição de Barack Obama em 2008

25 de janeiro de 2021

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Anderson Antikievicz Costa

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Renan Molin é catarinense, da cidade de Capinzal, com uma infância predominantemente rural e rodeada de culturas diversas, o que ajudou a criar um repertório visual inusitado e muito rico. Desde a sua adolescência, ele já caminhava pelo mundo do design e da propaganda, então, cursar design foi o caminho “mais natural para unir tudo isso”, como afirma Renan. Durante o curso, ele se aprofundou também em estudar os processos que envolvem a publicidade e como tudo que existe neste mundo capitalista é criado para a venda. Atualmente, depois de tanta bagagem, Renan é Head of Art na Grey New York – Grey Group é uma agência global de publicidade e marketing com sede em Nova York, que está no mercado desde 1917, atualmente com 432 escritórios em 96 países. Desde 2016 Renan possui também, junto com o sócio Lipsio Carvalho, uma marca de mochilas e artigos de couro para viagem, a Beatnik & Sons (marca de design brasileiro que produz mochilas, bolsas, malas e acessórios de viagem atemporais).

Dentre seus feitos, Renan fundou a agência Taste em Curitiba, que explora a criatividade e originalidade como fundamentos em suas campanhas, que tem como alguns de seus clientes MTV, Renault e O Boticário. Trabalhou por três anos e meio na ALMAP BBDO, como diretor de arte sênior em clientes como Havaianas, HP, C&A, Getty Images, VISA e novamente O Boticário.

Além disso, em 2008, Renan Molin, foi o único artista brasileiro convidado a participar da campanha presidencial que elegeu Barack Obama como o primeiro presidente negro do Estados Unidos. A escolha se deu quando Scott Thomas conheceu o trabalho de Renan por meio da publicação de um capítulo sobre o designer no livro Graphic Designers of America da editora alemã DAAB. Com isso, ele foi escolhido ao lado de 99 artistas gráficos do mundo todo para integrar a equipe do projeto Designing Obama. A contribuição de Renan foi o pôster All Colors Together.

Renan Molin

Confira a primeira parte da entrevista que Renan Molin concedeu a Ana Carolina Bueno, Anderson Costa e Maria Raquel Silva para o 360on.

360on > Vamos começar pelo início. Você sempre soube “o que queria fazer da vida”? Sempre se viu como um designer e diretor de arte?

Renan Molin > Essa é uma história improvável, mas como todo bom vendedor, eu vou tentar encontrar uma explicação racional para ela. Me permitam voltar um pouco no tempo: acho que três coisas foram fundamentais para me colocarem nessa profissão. Eu vim de uma infância muito rica visualmente, mas bastante improvável.

Sou do interior de Santa Catarina, de uma cidade chamada Capinzal, que tem hoje por volta de 20.000 habitantes. É predominantemente rural. Ou seja, minha infância foi toda permeada por experiências “no mato”, e eu só fui conhecer um pão francês quando eu tinha seis anos de idade. Acho que isso me ajudou a construir um repertório estético inusitado. Além disso, meus avôs maternos, eram colonos, seus pais vieram da Itália na última leva de imigrantes e tinham um repertório incrível de histórias folclóricas típicas do interior. Eram histórias surreais e cheias de mitologia e que acabaram me ajudando a fantasiar muita coisa, permitindo expandir meus horizontes criativos.

E por fim, minha mãe, que é uma professora incrível e desde muito cedo se preocupou em me dar repertório, e ler toneladas de histórias para mim, me incentivando a escrever e desenhar, e apesar de não ter ninguém na família com um background “criativo”, ela acabou abrindo essa janela para mim nessa profissão. No fim dos anos 90, ela comprou nosso primeiro computador, quando ainda era um negócio que custava um carro, para poder estudar como aquilo impactaria na educação das futuras gerações, essa é a linha de pesquisa dela. E que acabou abrindo uma porta para o mundo do design e da propaganda dentro da nossa casa, porque eu passei minha adolescência imerso em editores de html e mais para frente no Netscape Composer criando páginas de internet dos mais variados tipos. O mundo dos “.gifs” e dos “.mids” foram os grandes responsáveis pela minha formação artística (risos). Então, estudar design foi o caminho mais improvável, porém, o mais natural para unir tudo isso.

 

360on > Como se deu essa junção do design e publicidade na sua carreira? O que aproxima e o que distancia essas áreas na sua opinião?

Renan Molin > Quando eu fui estudar design, eu não conhecia absolutamente nada de publicidade. Aliás, a comunidade do design tinha relativo preconceito com ela, então, não era algo incentivado e muito mencionado dentro das escolas mais tradicionais.

Eu só fui descobrir o que era publicidade quando eu estava no último ano do meu curso. Eu já trabalhava em estúdios de design em Curitiba e quando eu comecei a pesquisar mais a fundo as premiações, eu entendi que os lugares com trabalhos mais premiados, eram de agências de propaganda. E aí, percebi que a qualidade daqueles trabalhos era tão boa quanto dos estúdios e então tudo começou. Em 2007, eu saí do Estúdio Crop, que era bem famoso na época e tinha acabado de ter um editorial inteiro sobre o trabalho deles feito pelo Miran (Oswaldo Miranda) na Revista Gráfica. Fui trabalhar na Master, a maior agência do Sul na época, para trabalhar com Tim, Banco do Brasil, entre outros. Lá a publicidade e design se tornaram uma coisa só graças a um cara espetacular chamado Marcos Minini, e logo depois dele, ao Claudio Freire, que me deu a primeira oportunidade de criar uma campanha, na época para o Banco do Brasil.

Na essência, acho que a publicidade tem o objetivo de vender. Ela foi criada para isso. São técnicas de narrativas para envelopar um produto em uma história poderosa que justifique sua compra. Já o design, nasceu para dar forma e função. Costuma-se dizer que tudo é design, seja a primeira ferramenta feita pelo homem (a pedra lascada), até os primeiros glifos. Então existem berços muito distintos entre os dois, mas em um sistema hiper capitalista como o nosso, tudo é produto para venda, ou seja, tudo é de certa forma publicidade.

Talvez a maior diferença seja no processo, como o Marcelo Serpa gosta de citar como a razão dele, designer, ter escolhido fazer propaganda: enquanto o design levava meses para colocar um sistema de identidade na rua, a propaganda colocava uma campanha inteira em duas semanas. A publicidade reage ao momento, o design reage ao por vir. Mas isso tudo pode ser uma grande bobagem da minha cabeça (Risos).

360on > Muitos estudantes pensam em abrir uma agência. Como foi a experiência com a Taste? Quais os desafios e quais foram as lições aprendidas?

Renan Molin > A Taste foi um projeto fantástico. Ela nasceu em 2010, da nossa vontade de criar um estúdio criativo fora do eixo São Paulo/Rio totalmente voltado para um trabalho de craft. A gente começou com os três sócios em uma sala apertada com nossos laptops e nenhum cliente. Assim que abrimos, alguns clientes de nossas agências anteriores começaram a nos procurar e claro, fomos reativando contatos que já tínhamos. Depois de três meses pegamos um projeto muito legal da MTV e aí as coisas começaram a acontecer.

No final de 2015 já tínhamos 30 pessoas trabalhando dentro da “casa amarela” como chamávamos nossa sede. Acho que o maior desafio e aprendizado são os de gestão e liderança, porque acredite, você nunca está 100% preparado para gerir um negócio e pessoas. E por isso é fundamental ter sócios que possam ter skills (habilidades) diferentes para te ajudar a focar naquilo que você precisa focar, seja no produto criativo ou na gestão, ou no que for. Na Taste, por exemplo, éramos em 3 sócios criativos e isso se mostrou um desafio com o passar do tempo. Eram necessários outros skills que tiveram de ser desenvolvidos muitas vezes a contragosto. Por isso um grande aprendizado é, tenha sócios com skills complementares aos seus, alguém precisa cuidar do negócio, não só do produto criativo. Mas, por outro lado, justamente por sermos em 3 sócios criativos, o estúdio tinha uma cultura linda e forte. As pessoas tinham muito orgulho de trabalhar lá e isso se refletia na qualidade do trabalho e nas relações entre as pessoas.

Foi sem dúvida uma das minhas melhores experiências.

No entanto, se você é criativo, eu sugiro que só abra seu negócio depois de passar por outras agências e ter trabalhado com muita gente boa.

 

360on > E como foi o desligamento com a Taste? Porque decidiu sair do país?

Renan Molin > Eu decidi sair da Taste porque meu ciclo de desenvolvimento naquele projeto tinha terminado. Senti que não estava mais evoluindo como criativo.

Ter um negócio é cuidar do todo e não só da criação, e eu queria me dedicar só a ela e aprender mais. Além do que, o mercado do Sul é relativamente pequeno, as campanhas são menores, menos ambição criativa por parte dos clientes regionais e como eu sempre fui a favor de não criar trabalho fantasma, consegui elevar o produto criativo da agência até certo ponto em função do ambiente e também das minhas limitações criativas na época. Então naquele momento eu vivia uma crise gigante de identidade profissional justamente por não poder me dedicar 100% a criação. Foi então que recebi o convite de ir pra Almap, justamente no momento que estava me desligando da Taste e aí me pareceu que o universo estava conspirando a favor. Mas minha saída foi muito tranquila, extremamente dolorosa, mas tanto o Ale com o Sandro continuam sendo dois grandes amigos que me ensinaram muito e por quem eu tenho muito carinho.

Sobre sair do país, eu decidi porque assim como ir pra Almap foi uma decisão muito natural quando eu recebi o convite do Eric Benitez, ir pra Grey de Nova Iorque me pareceu um convite irrecusável quando o Bernardo Romero me chamou. É um cara que eu já admirava profundamente, um ser humano foda e com um talento incrível.

A proposta era para ser Head of Art e dar minha cara para toda a direção de arte dos trabalhos. Era um próximo passo muito importante para minha carreira e sem dúvidas, uma experiência única de vida. Então não tive muita dúvida a respeito, mas confesso que nunca tive essa ambição de ir trabalhar em outro país, aconteceu naturalmente.

 

360on > Qual o maior desafio de estar em outro país? Como é o mercado no exterior?

Renan Molin > Acho que a maior barreira é realmente a cultura. A língua, ainda que você tenha que se habituar a pensar e improvisar em inglês o tempo todo é algo que acontece rápido, mas a cultura é algo que não se absorve da noite para o dia.

A forma de trabalho lá é muito mais colaborativa, os americanos são muito mais polidos e políticos do que os latinos, o que requer uma adaptação grande. Construir consenso é algo que se torna padrão e em alguns momentos o consenso não é o melhor para o trabalho. Mas com o tempo você vai aprendendo como se posicionar e criar seu espaço.

A questão cultural também implica em repertório. Criar para um mercado que não é seu é desafiador, porque o humor não é o mesmo, as referências de programas de TV não são as mesmas, as lembranças de infância das pessoas não são como as nossas.

E por fim, o timing das coisas. Estou há 1 ano e 5 meses lá e só agora meus primeiros trabalhos estão saindo. Eu fiquei quase louco no primeiro ano com esse timing mais lento, ainda mais quando você vem de uma máquina como a Almap, onde pôr job na rua acontece todo mês.

360on > Como foi participar da campanha do Obama? Como reagiu e o que sentiu quando recebeu o convite? Em qual setor você trabalhava?

Renan Molin > Eu era diretor de arte júnior na Master, em Curitiba, em 2007. Eu sempre gostei muito de política e estava completamente imerso na cobertura do início da campanha do Obama. Naquela época eu tinha acabado de ter um capítulo sobre o meu trabalho publicado no Graphic Designers of America da editora alemã DAAB, um livro que reunia os 40 artistas gráficos de toda a América a se olhar nos próximos anos. Então por meio disso, o Scott Thomas, que organizava a campanha digital e social do Obama entrou em contato comigo e mais 99 artistas gráficos pelo mundo, convidando para um projeto chamado Designing Obama. O briefing era muito simples, o que para nós significava a candidatura do futuro presidente. E aí nasceu a minha contribuição, o poster All Colors Together. Estar ao lado do Shepard Fairey, Paula Scher, etc, foi sem dúvida o maior reconhecimento que já tive do meu trabalho, sou muito grato ao Scott pelo convite e por toda a repercussão que causou. Viramos um livro editado pelo Spike Lee, rodamos em várias exposições pelos Estados Unidos e claro, demos uma contribuição ainda que mínima para a eleição do primeiro negro como presidente dos EUA, uma nação com problemas muito sérios de discriminação, mas que naquele momento se unia para superar ainda que momentaneamente seus preconceitos.

360on > Este foi seu projeto mais desafiador? Ou foi outro? Poderia comentar brevemente alguns projetos que te marcaram, tanto positiva como negativamente?

Renan Molin > Acho que o Obama foi o projeto mais importante como artista gráfico. Mas o mais desafiador foi com a Havaianas na Almap. Depois de passar nove meses ajudando a reposicionar a marca da C&A, me convidaram para me dedicar a um projeto novo de Havaianas. Tínhamos a missão de criar uma plataforma para a marca no social/digital. E justamente por ser uma marca com uma linguagem visual tão marcante e, um formato de roteiro de filme tão estabelecido e genial, nós tínhamos o desafio de trazer para o social um formato que pudesse flertar com a cultura pop, mas com a mesma riqueza visual dos prints da marca e as celebridades da tv. Foram 12 meses de trabalho intenso e muita experimentação para encontrar um equilíbrio num modelo 100% “no budget” (sem verba de produção). Como eram campanhas independentes, tivemos que criar um time multidisciplinar para dar vazão a produção e tirar as ideias do papel. Foi um ano de trabalho intenso, mas que renderam projetos muito divertidos como o Carnaval com a Jojô, MTV Miaw, Entre no Loop Havaianas e etc. Foram 30 micro campanhas que apesar de micro, tiveram um impacto gigante na forma de comunicar a marca. A própria Jojô, que não era o perfil de celebridade que a marca estava habituada a representar, trouxe uma brasilidade pop que me dá muito orgulho em ter ajudado a trazer para dentro da marca. Ganhei muitos cabelos brancos durante aquele ano.

Renan Molin tem um repertório de jobs e contribuições importantes para os profissionais do design, publicidade e marketing. Com isso, tratemos nos próximos dias a 2ª parte desta entrevista… FIQUEM LIGADOS!!!

Enquanto isso, confiram o portfólio de Renan.

Redação 360on

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