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Tania Heinzen

Acadêmica de Jornalismo

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Anderson Antikievicz Costa

Jornalista e professor

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A vida de correspondente internacional

O jornalista Rodrigo Carvalho fala sobre como foi ser correspondente internacional da Globo News

31 de março de 2020

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Tania Heinzen

Acadêmica de Jornalismo

POR:

Anderson Antikievicz Costa

Jornalista e professor

Ser correspondente internacional é o sonho de muitos estudantes e profissionais de Jornalismo. Viajar de um lugar a outro no mundo, conhecer culturas e pessoas diferentes, e registrar histórias… Poucos sabem, entretanto, que a profissão exige muito, que as notícias não estão prontas e que saudade de casa é sempre grande.

 

Para contar um pouco dessa experiência, o 360on conversou com Rodrigo Carvalho, que apenas com 32 anos atuou como jornalista internacional da Rede Globo/Globo News e já tem muita experiência para compartilhar. 

 

Carioca nascido em Niterói, se formou em Jornalismo pela PUC do Rio. Com a oportunidade de trabalhar como correspondente da Globo News, viajou para a Venezuela, Paraguai, Argentina, Líbano, Estados Unidos e, mais recentemente, em Londres.

 

Entre as histórias mais famosas que cobriu, estão dois resgates famosos: dos 33 trabalhadores presos em uma mina no Chile, e o das crianças isoladas e  caverna na Tailândia (que rendeu o livro “Os meninos da caverna”). Além disso, acompanhou de perto o complexo Brexit, processo de saída do Reino Unido da União Européia.

 

Confira como foi a conversa de Rodrigo Carvalho com o 360on, sobre as aventuras e desventuras dessa trajetória. 

360on – Sempre sonhou em ser jornalista? Trabalhou com algo diferente antes?

 

Eu me interessei por Jornalismo por causa do esporte. No início dos anos 90, eu era um menino magrelo e dentuço viciado em futebol, especificamente no Botafogo – essa droga pesadíssima. E aí que eu ia à banca todos os dias pra ler as capas dos jornais de esporte (Lance!, o saudoso Jornal dos Sports…) e, quando tinha umas moedinhas no bolso, comprava o que mais me chamava atenção. E assim eu fui consumindo muito jornalismo esportivo – no impresso, na tevê e no rádio. De dependente do Botafogo me vi viciado também em Jornalismo. Comecei a ter minhas preferências por estilo de reportagem, a pirar com boas fotos, a ter meus colunistas favoritos… Quando vi, queria ser jornalista esportivo.

 

O tempo passou e, na faculdade e principalmente no primeiro estágio (no Jornal da Cidade, um jornal quinzenal de Niterói, cidade onde nasci), fui conhecendo as outras editorias. E era bom experimentar um pouco de cada: política, cultura, comportamento… E assim acabei me afastando da cobertura de esporte. Na verdade, nem tanto! Trabalhei nas Copas de 2014, no Brasil (pé frio que sou, vi aquele vexame no Mineirão, e confirmo: 7×1 foi pouco), e de 2018, na Rússia – duas coberturas especiais pra mim.

 

360on – Como se tornou um correspondente internacional e o que você recomenda para os novos jornalistas que querem investir nessa área de atuação?

 

Virei correspondente depois de uma conversa com a Eugenia Moreyra, ex-diretora da GloboNews, a quem sempre agradeço pela oportunidade. É ela a culpada!

 

A verdade é que ser correspondente, pra mim, não era um sonho de faculdade, como é pra muitos estudantes. Eu queria ser repórter, era essa minha certeza: estar na rua. Mas nos anos em que trabalhei no Rio de Janeiro, pela GloboNews, acabei viajando bastante como enviado especial: Venezuela, Paraguai, Argentina, Líbano, Estados Unidos. Foi quando me interessei pela ideia de ter o mundo inteiro pra cobrir, sempre com o olhar brasileiro, fazendo relações com o nosso país e as nossas questões.

 

Se alguém que nos lê agora tem vontade de ser correspondente um dia, recomendo o básico: ler bastante (jornal, ficção, tudo), se interessar por outras culturas, por outras línguas, mas, antes de tudo, estar sempre conectado às questões brasileiras.

360on – Ser um jornalista correspondente é algo que traz mais prestígio ou conhecimento? O que há de mais legal nessa profissão?

 

É importante tomar muito cuidado com o encantamento e uma possível romantização do posto de correspondente internacional. Você é um jornalista que trabalha em outro país. Ponto. O resto é perfumaria, pose e ego. Aprendo muito como correspondente. Muito mesmo. E isso, eu acho, é o mais interessante de ser correspondente internacional: o desafio de, com frequência, no dia-a-dia, mergulhar em assuntos de países diferentes, com culturas diferentes, contextos diferentes, histórias diferentes. É muito rico.

 

360on – De que forma a experiência na cobertura do resgate chileno influenciou seu trabalho na cobertura do resgate dos meninos da caverna?

 

Acho que me ajudou a ter uma cautela extra. É que, numa cobertura desse tipo, é fácil deslizar pra um otimismo gratuito. Pelo simples fato de que você, como ser humano, deseja do fundo do seu coração que tudo dê certo e que os mineiros, no caso do Chile, e dos meninos, no caso da Tailândia, sejam resgatados saudáveis e sorridentes. Mas nos dois casos era preciso entender e comunicar a dificuldade da operação de resgate (no caso dos meninos da caverna, um mergulhador experiente morreu tentando salvá-los), os detalhes técnicos, pra que depois, sim, tudo dando certo, você se deixe levar pela alegria do final feliz. E como é bom dar boas notícias…  

360on – No livro Meninos da Caverna, você se preocupou em apresentar o contexto social dos personagens e ampliou a história abordando ainda aspectos políticos e religiosos. Na sua opinião, de que forma isso impactou na história que você queria contar? E o que você poderia dizer aos novos jornalistas sobre a importância desse olhar mais amplo e profundo para contar uma história?

 

O livro ‘Os Meninos da Caverna’, pra mim, só fazia sentido se trouxesse mais do que os bastidores da cobertura na Tailândia. Eu não queria fazer um livro para estudantes de jornalismo – o que não seria nenhum problema, mas não era o que eu queria. A ideia era escrever um livro-reportagem que trouxesse contexto político, social e religioso, que narrasse, com pesquisa e entrevistas, como a cultura local ajudava a explicar o resgate, que contasse a origem daqueles meninos e que mostrasse como se deu, em detalhes, aquela grande operação de resgate. Poder mergulhar assim numa história, ainda mais quando se é repórter de televisão, ofício que nos obriga a espremer reportagens em até um minuto e meio, é algo raro e que me move muito. E a causa-mãe do livro sempre foi, com todo o risco de soar piegas, navegar nos significados daquele caso raro de solidariedade mundial – um livro que fosse interessante e, por que não, que desse esperança, que tocasse as pessoas. Porque a história me tocou muito. E também foi uma forma de deixar registrado que, num ano esquisito como 2018, recheado de ódio de ponta a ponta, o mundo decidiu se importar com uns menininhos tailandeses. Não era pouca coisa.

 

360on – Qual é a imagem do Brasil hoje na impressa europeia?

 

Muito ruim. Por enquanto, o governo Bolsonaro, retratado aqui na Europa como um governo de extrema-direita (como deve ser), tem entrado no noticiário internacional basicamente pelas declarações preconceituosas, desrespeitosas, e pela inabilidade ao lidar com toda e qualquer crise, como a dos incêndios na Amazônia e a das manchas de óleo no litoral nordestino. É sempre num tom crítico o espaço dedicado ao Brasil na imprensa europeia. Uma imagem, portanto, extremamente negativa.

 

360on – O Brexit é outro assunto que você tem acompanhado.

 

Sim, o Brexit… o interminável Brexit. Cobrir a saída do Reino Unido da União Europeia é um desafio interessante. Primeiro porque é um assunto, ainda que muito relevante, intrincado, complexo, difícil de traduzir. Exige clareza, precisão, contexto e, sempre que possível, um sabor – uma história que torne tudo aquilo palpável pro público brasileiro. E também porque é uma história que não termina, que tá atolada. Por isso tem até um certo tom de chacota no ar. As pessoas no Brasil estão sempre brincando: ‘’e aquele Brexit lá, hein? Sai ou não sai?’’. Como se fosse bom, pra aliviar as tensões das nossas crises, pode tirar sarro da crise do outro, sabe? ‘Mas tá confuso aquilo lá, não tá?’. Tá, tá confuso (risos). E é aí que mora o desafio.

 

36oon – Como é a relação entre jornalistas correspondentes e jornalistas “locais”? Esse diálogo de alguma forma influencia na cobertura de assuntos como o Brexit?

 

É comum, na cobertura do Brexit, encontrarmos os mesmos jornalistas no Centro de Londres, ali perto do Parlamento e de Downing Street, rua onde fica o escritório do primeiro-ministro Boris Johnson. Vez ou outra trocamos ideias, o que é sempre bom pra sentir a temperatura do assunto e trocar impressões. Mais importante ainda, claro, é manter diálogo com o público no Brasil, pra quem a gente fala todo dia – sobre o Brexit ou qualquer outro assunto que a gente cubra aqui na Europa.

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