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Uma história que representa muitas

Os transtornos de ansiedade e depressão são o tema deste ano da Jornada Científica da Univel

11 de outubro de 2019

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Da Redação 360on

Imagem: Leonardo Souza e Anderson Costa

Colaboração: Henrique Corrêa

 

 

Aos 11 anos de idade, Bruna Moreira teve de lidar com a separação dos pais. Foi uma experiência traumática. Não tinha amigos, e não falava com as pessoas a sua volta sobre o que estava sentido. “Eu me fechei no meu mundo, nas minhas dores, fiquei atrás das minhas músicas”.

 

Aos poucos, desenvolveu um comportamento ainda mais destrutivo. “Houveram momentos em que eu até me cortava, cortava meus braços, pra ver se eu sentia algo, porque eu não tinha sentimento pelas pessoas e pelas coisas, nem por mim, então, eu tentava sentir dor, pelo menos. Lembro que durante anos eu não chorei por nada, o que não é bom e nem normal”.

 

Aos 16 anos, teve crises de desmaios e os exames não apontaram nenhum problema neurológico. “Então, eu fui para a terapia, e a minha psicóloga explicou que isso acontecia quando eu guardava muitas coisas pra mim e não jogava isso pra fora de alguma maneira, então o físico era afetado por isso”.

 

Aos 19, ao entrar na faculdade, recebeu o diagnóstico de ansiedade generalizada e depressão na semana de provas de fechamento do primeiro semestre de faculdade. “Fiquei 15 dias de atestado por causa dos remédios. Eu não tinha o mesmo desempenho dos meus colegas, minha memória foi muito afetada pelos medicamentos, então, eu tinha que estudar o tempo todo para as provas, tinha crises nas apresentações de trabalhos, branco nas provas por causa da ansiedade. Isso me impedia de produzir, ou de produzir no mesmo tempo dos meus amigos”.

 

A história da Bruna começou a mudar quando ela buscou ajuda e a dialogar com as pessoas sobre o que sentia. Nessa jornada, decidiu lidar com os transtornos à sua maneira.  Na hora de produzir o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) para o curso de Artes, Bruna decidiu unir uma paixão, a Fotografia, com o estudo dos próprios transtornos. Ela fez uma análise do ensaio fotográfico My Anxious Heart produzido pela artista Katie Joy Crawford, que também sofre de ansiedade e depressão. No ensaio, a fotógrafa norte-americana apresenta composições que buscam representar como se sentem as pessoas que sofrem com esses transtornos. Ao se identificar e engajar neste trabalho, Bruna conseguiu não apenas concluir o TCC com sucesso, como também compreender mais a si mesma. A nota 10 foi apenas consequência!

 

“Os resultados foram excelentes. Me ajudaram a enxergar o mundo além de um transtorno, de procurar possibilidades de melhora e de tratamento. Eu achei que nunca terminaria essa graduação. Mas terminei, sem DP. Eu achei que não iria escrever, que eu não podia, não era como meus colegas, não era inteligente, a ansiedade me calaria na apresentação, mas isso não aconteceu. Claro que o processo foi doloroso, cai muitas vezes, quis desistir, falar disso dói, ver isso através da fotografia da Katie dói, machuca. Ir a frente da banca falar de transtornos não é fácil, você não se sente suficiente. Essa é a importância de ter pessoas humanas a nossa volta”.

 

Bruna conseguiu através do estudo uma boa base para lidar com os transtornos, mas cada caso é um caso, cada um deve encontrar o seu caminho para a recuperação e para o tratamento. Por isso, Bruna dá um importante recado para as pessoas que estão passando por  situações semelhantes: “Falem com as pessoas sobre, peçam ajuda. Eu só me formei por ter apoio de colegas e professores quando me abri sobre os transtornos. Tudo ficou mais leve com eles. Conheçam a Arte e seu poder de tratamento, isso me ajudou muito. Procure pessoas que entendam você […]. Você pode, você é forte e você consegue! Como disse Van Gogh: grandes coisas são feitas a partir de várias pequenas coisas. Comemore cada conquista tua e se orgulhe disso!”

 

(Confira o depoimento completo ao final da página)

O CONTATO, O TCC E O ENSAIO

Se você se identificou com a história da Bruna, pode entrar em contato com ela pelo e-mail: [email protected]

 

E se você ficou interessado na pesquisa que a Bruna fez, o título é “A Fotografia e Transtornos Mentais: a Construção Poética de Katie Joy Crawford sobre a Ansiedade e a Depressão”. Para acessar o trabalho, basta clicar aqui.

 

O ensaio fotográfico da Katie Joy Crawford é intitulado My Anxious Heart (Meu Coração Ansioso). Confira algumas imagens:

 

JORNADA CIENTÍFICA UNIVEL 2019

 

Os transtornos de ansiedade e depressão são o tema deste ano da Jornada Científica da Univel, que receberá uma especialista no assunto. A Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva é referência nacional no tratamento dos transtornos mentais

 

Médica graduada pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) com residência em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui curso de Avaliação e Tratamento em Psiquiatria no Departamento de Psiquiatria da University of Chicago Hospitals, sob a supervisão do Dr. Elliot Gershon e Dra. Deborah Spitz, e é membro da Academia de Ciências de New York e Professora Honoris Causa pela UniFMU (SP). Além disso, é consultora do Programa Mais Você (Rede Globo), desde 2009, em assuntos relacionados ao comportamento humano e do Programa Sem Censura (TV Brasil), desde 1996.

 

Ana Beatriz também é autora de pelo menos 13 livros sobre o assunto. Alguns deles estão entre os mais vendidos no Brasil na categoria não-ficção, somando mais de 2 milhões de exemplares vendidos. Obras como “Mentes Depressivas – As três dimensões da doença do século”, de 2016, e “Mentes Ansiosas: Medo e Ansiedade Além dos Limites”, de 2011, são consideradas obras essenciais na área.

 

A Jornada ainda está com as inscrições abertas para ouvintes, então, se você se identifica com o assunto, é uma boa oportunidade para saber mais sobre os transtornos.

 

PROJETO CONEXÕES HUMANS


Se você se identificou com a história da Bruna ou passa por algo semelhante e sente que precisa de ajuda, converse com um professor ou professora sobre o Projeto Conexões Humanas. É um time de professores e profissionais de Psicologia que querem ouvir sua história e ajudar.

 

O Projeto Conexões Humanas, proposto pela coordenação pedagógica da Univel, com apoio da Direção, reúne professores e profissionais da psicologia atentos aos sinais desses transtornos entre os alunos. O objetivo é oferecer suporte aos acadêmicos que estão passando por situações semelhantes. 

 

UMA SOCIEDADE DOENTE

 

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, a Andifes, divulgou uma pesquisa em 2016 que evidencia um cenário preocupante. Um levantamento feito com quase 940 mil estudantes de graduação, de 62 instituições, apontou que sete em cada dez alunos sofrem de algum tipo de estresse mental, como ansiedade ou depressão.

 

A média de idade dos alunos entrevistados é de 24 anos, que está na faixa etária que mais sofre com esses transtornos. Acadêmicos possuem seis vezes mais chances de desenvolver esses transtornos. A preocupação com a inserção no mercado de trabalho, a pressão por resultados, a cobrança social para ser bem-sucedido. Soma-se a perda ou a ausência de referências, e o cansaço emocional e físico, com dupla jornada ou até tripla jornada no dia (trabalho, estudo e casa).

 

É uma questão preocupante no mundo todo. Nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pelo Center for Collegtiatte Mental Health em 500 universidades norte-americanas, mostrou que 20% dos estudantes universitários tem ansiedade e/ou depressão.

 

DEPOIMENTO

Bruna Moreira conta como foi descobrir ter ansiedade e depressão e conviver com os transtornos durante toda a graduação

 

360on > Qual a sua história com os transtornos? Como foi o processo de diagnóstico e como tem sido o tratamento?

Bruna Morel> A minha história com os transtornos começou na adolescência durante a separação dos meus pais. Eu tinha 11 anos e não soube lidar com o processo traumático que foi. Então eu me fechei no meu mundo, nas minhas dores, fiquei por trás das minhas músicas e assim passei o processo de depressão. Não tinha muitos amigos, não falava com as pessoas a minha volta, houveram momentos em que eu até me cortava, cortava meus braços, pra ver se eu sentia algo, porque eu não tinha sentimento pelas pessoas e pelas coisas, nem por mim, então, eu tentava sentir dor, pelo menos. Lembro que foram anos em que eu não chorava por nada, o que não é bom e nem normal. Comecei a melhorar sem uso de remédios, apenas com a rotina do dia a dia, tudo foi camuflando. Aos 16 anos, eu tive crises de desmaios e eu não entendia, porque fiz diversos exames e nenhum deles diagnosticou algo neurológico, então, eu fui para a terapia, onde a minha psicóloga explicou  que isso acontecia quando eu guardava muitas coisas pra mim e não jogava isso pra fora de alguma maneira, então o físico era afetado por isso. Foram anos de terapia, então, ela me encaminhou para psiquiatra, pois eu comecei a ter crises que eu não entendia. Eu começava a chorar e me faltava ar, eu ficava noites sem dormir, preocupada com coisas que futuramente aconteceriam, não me achava suficiente em nada, mãos trêmulas, impulsividade e aquilo estava afetando minha vida e meu trabalho. Aos 19 anos, recebi o diagnóstico de ansiedade generalizada e comecei o uso de medicamentos. Os remédios de ansiedade são um dos piores que existem, primeiro elevam tua ansiedade nos primeiros 15 dias para depois acalmá-la, então é tudo muito intenso e doloroso.  O mal estar que eles causam, efeitos físicos, eu lembro que vomitava e passava o dia na cama passando mal. Depois desse período , era como um calmante, me sentia até mais leve. Mas se eu esquecia o remédio era motivo de crise. Até então eu tinha tido um episódio de depressão e outro de ansiedade, até chegar aos 19 e me deparar com um diagnóstico que era ter os dois transtornos ao mesmo tempo. Meu processo começou aos 11 anos, iniciei com psiquiatra aos 16 para somente aos 19 ter um diagnóstico. Foi a crise mais difícil da minha vida, o término de um relacionamento que eu também não soube lidar, sem a medicação completa, e um diagnóstico preciso, eu estava sofrendo, então em uma crise que eu estava totalmente fora de controle psíquico, eu fui ao psiquiatra e fui diagnosticada.  Diagnósticos certos demoram, precisam de acompanhamento, não é possível ir ao psiquiatra e já ser diagnosticado. E na época minha terapeuta e ele se comunicavam o tempo todo, antes de um diagnóstico, então é necessário esse processo. O tratamento não é fácil, eu recebi meu diagnóstico no 1º semestre da faculdade. A primeira fase foi a mais difícil, a aceitação, eu não admitia, não me considerava uma pessoa normal, uma pessoa capaz de amar e ser amada pelas pessoas. Eram cinco medicamentos por dia, meu lítio abaixo do que e considerado normal. Os remédios engordam se você não faz exercício físico e não tem uma boa alimentação. As coisas não melhoram se você não conversa com ninguém. A luta é diária, hoje você acorda bem, mas algo que acontece no minuto seguinte é capaz de destruir seu dia e não te fazer sentir vontade de viver. Eu passei por episódios de suicídio, eu queria morrer, não queria viver com essa doença, e associei tudo a ela. Meu pai me abandonou porque eu era doente, meu namorado não quis ficar comigo e a culpa era minha por ser assim, isso acabou com a minha vida aos poucos. Não tinha amigos na faculdade, era isolada, na minha, no meu mundo. Era assim que eu me sentia. A luta é todo dia, mas você precisa procurar saber sobre seu transtorno, o que ele é, como te afeta, o que você pode fazer pra melhorar e para as coisas se tornarem mais leves, e só você pode fazer isso, porque só você entende o que e isso tudo, e às vezes a gente espera um super-herói, um pai, uma mãe, um professor, um amigo, um namorado e não tem ninguém. Porque a parte mais difícil é as pessoas não saberem lidar com você, ou com sua forma de sentir, porque elas não entendem e não buscam entender. Essa falta de empatia machuca e é a parte mais difícil porque você se sente sozinho”.

 

360on > De que forma os transtornos afetaram o teu desempenho na faculdade?

Bruna > Me afetaram muito porque recebi meu diagnóstico na semana de provas de fechamento do meu primeiro semestre de faculdade. Fiquei 15 dias de atestado por causa dos remédios. Eu não tinha o mesmo desempenho dos meus colegas, minha memória foi muito afetada pelos medicamentos, então, eu tinha que estudar o tempo todo para as provas, tinha crises nas apresentações de trabalhos, branco nas provas por causa da ansiedade. Isso me impedia de produzir, ou de produzir no mesmo tempo dos meus amigos. 

 

360on > Você decidiu fazer um trabalho de conclusão de curso envolvendo os transtornos com a tua área profissional. Como foi esse processo e quais foram os resultados?

Bruna > Durante três anos da faculdade, nunca falei sobre o tema, nem quando trabalhamos sobre Poéticas Visuais e Expressão. Eu fugia do assunto, me escondia. Foi então que no TCC, dei voltas e voltas sobre qual tema trabalharia, até chegar no trabalho da fotógrafa Katie Joy Crawford, que me chamou muita atenção. Pela primeira vez eu encontrei algo e alguém que me representava de forma real, o que era viver com os transtornos de ansiedade e depressão. Quando conheci meu orientador, o prof. Anderson, confiei a ele desde o início a minha história com os transtornos, e então decidimos falar sobre isso juntos. Esse era o momento de falar, de me expressar e fazer algo com isso. Eu não podia simplesmente passar pela faculdade de Artes e não fazer nada. Os resultados foram excelentes, me ajudaram a enxergar o mundo além de um transtorno, de procurar possibilidades de melhora e de tratamento. Eu achei que nunca terminaria essa graduação. Mas terminei, sem DP. Eu achei que não iria escrever, que eu não podia, não era como meus colegas, não era inteligente, a ansiedade me calaria na apresentação, mas isso não aconteceu. Claro que o processo foi doloroso, cai muitas vezes, quis desistir, falar disso dói, ver isso através da fotografia da Katie dói, machuca. Ir a frente da banca falar de transtornos não é fácil, você não se sente suficiente. Essa é a importância de ter pessoas humanas a nossa volta. Meu orientador sempre teve empatia comigo, me cobrava, insistia em mim, mas sempre estava me puxando quando eu queria desistir, me incentivava quando eu não me achava suficiente. O processo foi difícil, mas, no final, tudo valeu a pena.

 

360on > O que teria a dizer para os acadêmicos que sofrem com esses transtornos?

Bruna > Eu diria, não se cobrem e não se culpem. Procurem maneiras de ficar bem, façam as coisas no seu tempo. Se não tiverem ajuda de seus professores e colegas, procurem a coordenação do curso. Levem para a faculdade os diagnósticos, falem com as pessoas sobre, peçam ajuda. Eu só me formei por ter apoio de colegas e professores quando me abri sobre os transtornos. Tudo ficou mais leve com eles. Conheçam a Arte e seu poder de tratamento, isso me ajudou muito. Procure pessoas que entendam você. Sua saúde em primeiro lugar, você não precisa fazer as coisas no mesmo tempo que os outros, mas isso também não quer dizer que não precisam se dedicar e encher as pessoas de desculpas. Não! Só entenda quando deve parar e quando continuar. Você pode, você é forte e você consegue! Como disse Van Gogh: grandes coisas são feitas a partir de várias pequenas coisas. Comemore cada conquista tua e se orgulhe disso!

 

Se você se identificou com a história da Bruna ou passa por algo semelhante e sente que precisa de ajuda, informe um professor ou professora do Projeto Conexões Humanas. Queremos ouvir sua história e ajudar.

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