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Anderson Antikievicz Costa

Jornalista e professor

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Os beatniks – p. 1

Da contracultura para o imaginário pop

12 de junho de 2019

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Anderson Antikievicz Costa

Jornalista e professor

PENSADO ESTRITAMENTE COMO MOVIMENTO LITERÁRIO, a beat generation encerra-se entre 1944 e 1958, respigando alguma coisa em 1959.

Entretanto, da prosa e da poesia, a atitude e os propósitos beats chegaram a praticamente todas as artes, e mais de meio século depois, os beatniks ainda atrai leitores, artistas e estudantes. Mas o que há de novo? Em verdade, não muito. O movimento é atraente por que permanece como uma referência em experimentação na linguagem e ainda estamos conectados pela vontade de romper com as convenções sociais e artísticas do nosso tempo. O movimento ainda é uma força revolucionária contra o caretismo.

 

Uma boa maneira de conhecer a beat generation é com o livro Geração Beat, de Claudio Willer, lançado pela LP&M. Poeta, ensaísta e tradutor de Allen Ginsberg, Willer conhece bem esse terreno e nos conduz com facilidade nessa jornada ao mundo do sexo livre, do jazz e da literatura. Didático, Willer fala de etimologia, descreve a gênese do movimento, a maneira como se insere na cultura de massa e o coloca em perspectiva a contracultura e os hippies (alguém já disse, “todo hippie deve a liberdade a um beatnik”).

Além disso, traz pequenas biograf as, tanto literárias como sexuais, dos três principais beats. Ginsberg, Kerouac e Burroughs são ‘intertextuais’ em vários níveis não-literários. Por f m, Willer, antes de apresentar os representantes brasileiros, discute de que maneira a crítica literária – canônica como é hoje, para não dizer careta – deveria analisar a beat, onde vida e obra são indissociáveis.

 

Beatitude

A expressão beat generation, segundo Allen Ginsberg, “surgiu em uma conversa entre Jack Kerouac e John C. Holmes em 1948. Discutiam a natureza das gerações, lembrando o glamour da lost generation (geração perdida), e Kerouac disse: ‘Ah, isso não passa de uma geração beat’. Falavam sobre ser ou não uma ‘geração encontrada’ (como Kerouac às vezes a denominava), uma ‘geração angélica’, ou qualquer outro epíteto. Mas Kerouac descartou a questão e disse ‘geração beat’ – não para nomear a geração, mas para desnomeá-la –”.

 

O termo beat também é associado ao vocabulário marginal da Times Square, em Nova Iorque, um hip talk que o delinquente e amigo dos beatniks Herbert Hunke costumava dizer, quase como um mantra pessoal: “Man, I am beat”, algo como “Cara, estou ferrado”. Beatnik, por sua vez, tal como explica Willer, “é um termo irônico, depreciativo, criado pela mídia (apareceu pela primeira vez no San Francisco Chronicle, em 1958). Fusão com Sputnik, o primeiro satélite artif cial, referia-se ao fenômeno coletivo, ao grande número de jovens que vinham adotando a estima e atitude dos beats. Mas servia para indicar que algo estava acontecendo: designava não mais um grupo de autores, mas um acontecimento social, além de geracional”.

Geração das ruas

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 “Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas”

– Jack Kerouac

 

A beat começa na década de 1940 em Nova York. Kerouac, Burroughs e Ginsberg fazem uma poesia urbana, tanto inspirada na linguagem das ruas quanto carregada de experienciais pessoais, críticas à cultura ofcial e aos valores instituídos. Quando se mudam para São Francisco, isso já na década de 1950, a visão da beat se expande ao dialogar com outras expressões artísticas, como a música, a escultura, a pintura e a fotografa, e com novos artistas, como Gary Snider, Lawrence Ferlinghetti e até Norman Mailer, um dos grandes nomes do New Journalism.

 

Mas o caráter marginal da beat, tal como ressalta Wilson AlvesBezerra, não deve reduzi-la a subliteratura. Se a base literária do movimento (Dostoiévski, Ezra Pound, Whitman, William Blake, Thomas Wolfe), as “bases musicais (o jazz bop) e religiosas (o misticismo cristão, o gnosticismo, o taoísmo) ajudam a compor um perfl que mantém a literatura beat como literatura de vagabundos”, não a tornam uma “literatura vagabunda”.

 

 

A beat catalisa todas essas influencias, vive essas influências e as exala na linguagem, que oscila “do mantra ao sexo explícito, do sagrado ao profano, do espiritual ao material”. De uma forma ou outra, com o movimento beat veio uma nova visão política e cultural que buscava a conciliação entre justiça social e liberdade individual, entre arte e vida. “A beat não foi um vanguardismo tardio, mas um movimento típico de segunda vanguarda. Representou o novo e foi inovadora naquele contexto (…). Se recuperou o ímpeto inovador do primeiro ciclo vanguardista, adicionou-lhe novas tomadas de posição, não só estéticas, mas políticas”.

 

Uma profusão de ideias movida pela heterogeneidade e por ser, além de um movimento literário, um grupo de amigos esquisitos. “Reunir desde o flho de um morador de rua, Neal Cassady, até o descendente de uma elite econômica, William Burroughs, e o autodidata Gregory Corso, que conhece literatura nacadeia, até Lawrence Ferlinghetti, doutorado na Sorbonne, a diferencia de movimentos europeus”.

 

Na próxima parte história, um pouco mais sobre o trabalho dos principais artistas do movimento.

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